Tendinopatia de Aquiles: do diagnóstico à recuperação
Por PHYSIO4ALL
Acorda de manhã, põe o pé no chão e sente aquela rigidez no tendão de Aquiles que já conhece. Os primeiros passos são desconfortáveis. Depois aquece e melhora. Vai treinar, começa mal mas acaba bem. No dia seguinte, a mesma história. Semanas, meses, às vezes anos neste ciclo.
A tendinopatia de Aquiles é exactamente isto: uma condição persistente, cíclica e frustrante que afecta entre 6 a 17% dos corredores e é comum em qualquer desporto que envolva corrida ou saltos (de Jonge et al., British Journal of Sports Medicine, 2011).
O que é realmente uma tendinopatia?
Esqueça a palavra "tendinite". Tendinite implica inflamação. E o que sabemos hoje é que a maioria das tendinopatias crónicas não são primariamente inflamatórias — são degenerativas. O tendão falha em adaptar-se às cargas que lhe são impostas e entra num processo de desorganização das suas fibras de colagénio.
Cook e Purdam propuseram em 2009 o modelo do continuum da tendinopatia, que revolucionou a forma como entendemos e tratamos esta condição. O tendão pode estar em três fases:
- Reactiva — resposta aguda à sobrecarga. O tendão incha, dói, mas tem potencial de recuperação completa se a carga for gerida.
- Degeneração — alterações estruturais no tendão com desorganização do colagénio. Mais difícil de reverter mas ainda responsiva ao tratamento.
- Reactiva sobre degenerativa — a fase mais complexa. Áreas degeneradas coexistem com áreas reactivas. É o cenário clínico mais comum.
Perceber em que fase está o tendão muda completamente a abordagem terapêutica.
O papel central do exercício
Se há um consenso claro na literatura sobre tendinopatias é este: o exercício é o tratamento de primeira linha. Não o repouso. Não os anti-inflamatórios. Não as injecções. O exercício.
Mas não qualquer exercício.
O exercício excêntrico foi durante anos o gold standard. O protocolo de Alfredson — 3 séries de 15 repetições de heel drops excêntricos, duas vezes por dia, durante 12 semanas — mostrou bons resultados em estudos iniciais. Mas a evidência mais recente sugere que a componente excêntrica isolada pode não ser superior a outras formas de carga progressiva.
Heavy Slow Resistance (HSR) — exercícios de resistência pesada e lenta, como heel raises com carga externa em 3 séries de 8-12 repetições — mostraram resultados comparáveis ao protocolo excêntrico com maior satisfação dos pacientes (Beyer et al., Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2015).
O que importa é a progressão de carga. Começar com o que o tendão tolera e progredir gradualmente.
O que não funciona (apesar de ser popular)
Quantas vezes já ouviu que "gelo e repouso" curam tudo?
Repouso completo. Parar de todo descarrega o tendão temporariamente mas não melhora a sua capacidade. Quando a actividade recomeça, o tendão está mais fraco e a dor regressa. O repouso activo — modificar a actividade mantendo alguma carga — é preferível.
Anti-inflamatórios. Se a tendinopatia não é primariamente inflamatória, anti-inflamatórios podem mascarar sintomas sem tratar a causa. Além disso, há evidência de que podem até prejudicar a remodelação do tendão a longo prazo.
Injecções de corticosteróides. Alívio rápido mas temporário, com risco de enfraquecimento do tendão e taxas elevadas de recorrência. As guidelines actuais desaconselham o seu uso rotineiro em tendinopatias crónicas.
A abordagem que seguimos
Na PHYSIO4ALL, a abordagem à tendinopatia de Aquiles segue o modelo proposto por Silbernagel e Crossley (Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2015):
Fase 1 — Gestão de carga isométrica. Contrações isométricas do tríceps sural para modulação da dor e manutenção da capacidade muscular. Redução da actividade provocadora para um nível tolerável.
Fase 2 — Fortalecimento isotónico progressivo. Heel raises bilaterais → unilaterais → com carga externa. Progressão guiada pela resposta do tendão (regra das 24 horas: se a dor agrava e não volta ao nível basal em 24 horas, a carga foi excessiva).
Fase 3 — Treino de armazenamento e libertação de energia. Saltos, pliometria e corrida progressiva. O tendão de Aquiles funciona como uma mola — precisa de ser treinado para essa função.
Fase 4 — Regresso ao desporto. Aumento gradual do volume e intensidade específicos da modalidade.
Paciência é o tratamento mais difícil
Uma tendinopatia de Aquiles demora tipicamente 3 a 6 meses para melhorar significativamente com uma abordagem adequada. Às vezes mais. E o percurso não é linear — há semanas boas e semanas más.
A tentação de procurar soluções rápidas é enorme. Mas não há atalhos para a remodelação de um tendão. Consistência no exercício, gestão inteligente da carga e paciência. São estas as três chaves.
Se tem dor no tendão de Aquiles há mais de duas semanas, não ignore. Quanto mais cedo se intervém, melhor é o prognóstico.
Nota: Este artigo tem carácter meramente informativo e não substitui a avaliação por um profissional de saúde qualificado.