Ligamento cruzado anterior: reabilitação passo a passo
Por PHYSIO4ALL
A rotura do ligamento cruzado anterior (LCA) é a lesão que nenhum desportista quer ouvir. E no entanto, acontece com uma frequência preocupante — sobretudo no futebol, no basquetebol e no ski. Em Portugal, com a popularidade do futebol amador, vemos esta lesão regularmente no consultório.
A boa notícia: a reabilitação pós-reconstrução do LCA evoluiu enormemente nos últimos 20 anos. A má notícia: continua a ser um processo longo que exige comprometimento total do paciente.
Os primeiros dias: gerir o caos
Acabou de sair do bloco operatório. O joelho está inchado, dorido e assustador. É normal.
Nas primeiras duas semanas, os objectivos são simples mas fundamentais:
- Controlar o edema e a dor
- Recuperar a extensão completa do joelho — este é o objectivo número um e a prioridade absoluta
- Activar o quadricípite — conseguir contrair o músculo voluntariamente
- Iniciar carga parcial com canadianas conforme tolerado
A extensão completa do joelho nas primeiras semanas é tão importante que vale a pena repetir: se perder extensão nesta fase, vai ser muito mais difícil recuperá-la depois. Dormimos com o joelho em extensão. Sentamo-nos com o joelho em extensão. A extensão é rainha.
Semanas 2-6: construir a base
O edema começa a ceder. A marcha normaliza-se gradualmente. As canadianas vão sendo abandonadas conforme a confiança e a função melhoram.
Nesta fase trabalhamos:
- Fortalecimento progressivo do quadricípite (isométricos, depois concêntricos)
- Flexão progressiva do joelho (objectivo: 90 graus às 4 semanas, 120+ às 6 semanas)
- Bicicleta estática quando a flexão o permite
- Treino de marcha sem compensações
A tentação de querer fazer mais é grande. Mas o enxerto ainda está numa fase de remodelação biológica — a "ligamentização" — e não tolera cargas excessivas.
Meses 2-4: ganhar força a sério
Aqui é onde o trabalho duro começa. A dor já é mínima, o joelho mexe bem, e o paciente começa a sentir-se "normal". Mas a força está longe do necessário.
Introduzimos:
- Agachamento progressivo (peso corporal → carga externa)
- Leg press
- Exercícios em cadeia cinética aberta para o quadricípite (com precauções angulares conforme o tipo de enxerto)
- Treino dos isquiotibiais e glúteos
- Proprioceção em apoio unipodal
O objectivo é claro: o membro operado tem de recuperar pelo menos 70-80% da força do membro saudável antes de avançar para a fase seguinte.
Meses 4-6: começar a correr (talvez)
"Quando é que posso correr?" — a pergunta que todos fazem a partir do mês dois.
A resposta não é uma data no calendário. É um conjunto de critérios. Na literatura actual, os critérios mínimos para iniciar corrida incluem (Dingenen & Gokeler, Sports Medicine, 2017):
- Ausência de derrame articular
- Extensão e flexão completas
- LSI do quadricípite superior a 70%
- Boa qualidade de movimento em agachamento unipodal
- Capacidade de saltar e aterrar em apoio unipodal sem dor
O programa de corrida é progressivo: caminhada rápida → corrida-caminhada intervalada → corrida contínua lenta → aumento gradual de velocidade e volume.
Meses 6-9: treino específico do desporto
Mudanças de direção. Travagens. Acelerações. Saltos. Rotações. Tudo o que o desporto exige e que assusta quem teve uma rotura do LCA.
A progressão é milimétrica. De exercícios planeados para exercícios reactivos. De velocidade controlada para velocidade máxima. De ambiente previsível para ambiente caótico.
E aqui o medo entra em jogo. Na PHYSIO4ALL trabalhamos muito o aspecto psicológico nesta fase. Exposição progressiva, feedback positivo e objectivos intermédios ajudam o atleta a ganhar confiança no joelho.
Meses 9-12: decisão de regresso
A bateria de testes de return-to-play é aplicada. Força, potência, equilíbrio, agilidade e prontidão psicológica são avaliados objectivamente. Só com critérios cumpridos é que se dá luz verde.
As taxas de re-rotura do LCA são significativas — cerca de 15-20% em atletas jovens que regressam ao desporto pivotante nos primeiros dois anos (Wiggins et al., American Journal of Sports Medicine, 2016). Uma reabilitação completa e critérios de return-to-play rigorosos reduzem este risco.
Nove meses parece uma eternidade quando se está a viver. Mas é um investimento. Uma reabilitação bem feita é a melhor protecção que pode dar ao seu joelho.
Nota: Este artigo tem carácter meramente informativo e não substitui a avaliação por um profissional de saúde qualificado.