Hérnia discal: quando a fisioterapia é a melhor opção
Por PHYSIO4ALL
Se lhe diagnosticaram uma hérnia discal, respire fundo. Na maioria dos casos, a fisioterapia é o tratamento recomendado como primeira opção, e a evidência científica mostra que cerca de 85-90% dos pacientes com hérnia discal melhoram com tratamento conservador. A cirurgia fica reservada para uma minoria de situações específicas.
O que é realmente uma hérnia discal
O disco intervertebral funciona como um amortecedor entre as vértebras. Tem uma parte exterior fibrosa (anel fibroso) e um núcleo gelatinoso (núcleo pulposo). Quando o anel fibroso se rompe e parte do núcleo sai para fora, temos uma hérnia discal. Se esse material herniado comprime uma raiz nervosa, pode causar dor irradiada para a perna (ciática) ou para o braço, dependendo do nível da coluna afetado.
Mas aqui está o que muitos não sabem: ter uma hérnia discal na ressonância magnética não significa necessariamente que ela é a causa da dor. Estudos epidemiológicos mostram que até 30% das pessoas com 30 anos têm protrusões ou hérnias discais sem qualquer sintoma. Aos 60 anos, essa percentagem sobe para mais de 60%. Uma ressonância publicada no New England Journal of Medicine em 1994 — já lá vão mais de 30 anos — demonstrou isto claramente, e a evidência subsequente só tem reforçado esta conclusão.
Quando é que a cirurgia é necessária?
Vou ser claro sobre isto. A cirurgia está indicada em situações específicas: síndrome da cauda equina (perda de controlo de esfíncteres, dormência na região perineal — uma emergência médica), défice neurológico progressivo (perda de força que vai piorando), ou dor ciática severa que não melhora após 6-12 semanas de tratamento conservador adequado.
Fora destas situações, operar não oferece vantagens claras a longo prazo em relação ao tratamento conservador. Um estudo referência publicado no JAMA em 2006 (o SPORT trial) comparou cirurgia com tratamento conservador e concluiu que, ao fim de dois anos, os resultados funcionais eram semelhantes. A cirurgia proporcionava alívio mais rápido, mas o destino final era o mesmo.
O que a fisioterapia faz de concreto
A abordagem depende da fase e da apresentação clínica, mas há princípios que se mantêm.
Educação — é o primeiro e talvez o mais importante passo. Quando um paciente percebe que a hérnia não é uma sentença, que o disco pode reabsorver-se parcialmente, e que o movimento é seguro e benéfico, tudo muda. O catastrofismo e o medo do movimento (cinesiofobia) são dois dos maiores preditores de mau resultado. Combater isso com informação clara e baseada em evidência é terapêutico por si só.
Exercício de centralização — a abordagem McKenzie, por exemplo, utiliza movimentos direccionais repetidos para "centralizar" os sintomas — ou seja, trazer a dor da perna para a lombar, e da lombar para o centro. Quando os sintomas centralizam, o prognóstico é geralmente bom. É uma forma de avaliação e tratamento ao mesmo tempo.
Exercício terapêutico — fortalecimento do core, exercícios de controlo motor, e atividade aeróbia gradual. Caminhar, nadar, pedalar — tudo conta. O importante é manter-se ativo dentro dos limites da dor.
Terapia manual — mobilizações vertebrais e técnicas de neurodinâmica podem ajudar a reduzir a dor e a melhorar a mobilidade a curto prazo. São um complemento ao exercício, não um substituto.
A hérnia desaparece?
Pode parecer surpreendente, mas sim — em muitos casos, o material herniado é reabsorvido pelo organismo ao longo do tempo. Uma meta-análise publicada no Clinical Rehabilitation em 2015 mostrou que hérnias com extrusão ou sequestro (as maiores) tinham taxas de reabsorção espontânea superiores a 60%. Quanto maior a hérnia, maior a probabilidade de reabsorção. Irónico, mas verdadeiro.
Isto não significa que devemos esperar sentados que o corpo resolva tudo sozinho. O exercício e a fisioterapia ajudam a gerir os sintomas enquanto o processo natural de reabsorção ocorre, e previnem a perda de condição física que o sedentarismo forçado provocaria.
Na PHYSIO4ALL, em Gondomar, recebemos muitos pacientes com hérnias discais que já tentaram de tudo — repouso absoluto, medicação forte, cinta lombar — e continuam com dor. Frequentemente, o que faltava era exatamente o contrário do que estavam a fazer: mover-se, de forma orientada e progressiva.
Se tem uma hérnia discal e não sabe por onde começar, procure um fisioterapeuta. A resposta pode estar mais perto do que pensa.
Nota: Este artigo tem carácter meramente informativo e não substitui a avaliação por um profissional de saúde qualificado.